IA não está a transformar as empresas. Está a testar a sua capacidade para mudar

“À medida que a IA ganha autonomia, aumenta também a necessidade de definir limites, supervisão e responsabilidade humana.”

Miguel Leocádio, da Glintt Global, analisa a evolução da adoção de Data & AI em Portugal, os desafios de escalar projetos de Inteligência Artificial e o impacto crescente da Agentic AI nas organizações. Para o responsável, a maturidade já não se mede pelo número de provas de conceito, mas pela capacidade de gerar valor real para o negócio.

Principais mensagens

  • A maturidade da IA mede-se pela capacidade de colocar soluções em produção e gerar impacto no negócio.
  • A Agentic AI abre novas oportunidades, mas exige maior supervisão, governação e responsabilização.
  • A qualidade, integração e governação dos dados continuam a ser fatores críticos para criar valor com IA.

Entrevista

D.I.: O verdadeiro teste começa quando os pilotos chegam a produção, ganham escala e geram retorno. As candidaturas mostram que Portugal já está a ultrapassar essa fase experimental?

Miguel Leocádio: Diria que o mercado está a fazer essa transição, embora com diferentes níveis de maturidade. Fazer um piloto de IA tornou-se relativamente acessível. É na passagem para produção que surgem os verdadeiros testes: qualidade e disponibilidade dos dados, integração com sistemas existentes, segurança, compliance, responsabilidades claras e capacidade de demonstrar impacto no negócio. A maturidade mede-se menos pelo número de provas de conceito e mais pela capacidade de industrializar a IA.

D.I.: Quando avalia um projeto de Data & AI, onde coloca a fronteira entre uma boa demonstração tecnológica e um projeto verdadeiramente transformador para uma empresa?

Miguel Leocádio: A fronteira está na capacidade de transformar uma possibilidade tecnológica num resultado de negócio sustentável. Isso implica partir de um problema relevante e medir impacto: mais produtividade, melhor decisão, menor risco, redução de custos ou melhoria da experiência do cliente.

D.I.: Estamos a assistir à passagem da IA generativa para sistemas cada vez mais autónomos e para a chamada Agentic AI. Já vê esta mudança a acontecer de forma concreta?

Miguel Leocádio: Sim. Estamos a passar de uma IA usada sobretudo para responder, resumir ou gerar conteúdos, para sistemas capazes de executar tarefas, interagir com dados e aplicações empresariais e participar em processos de forma mais autónoma. Quando um agente deixa de apenas responder a perguntas e passa a participar na execução de processos, começa a alterar o próprio modelo operacional.

D.I.: Quanto maior é a autonomia dos sistemas de IA, maior é a necessidade de controlo. Estamos a evoluir tecnologicamente mais depressa do que as empresas conseguem desenvolver modelos de governação, segurança e responsabilização?

Miguel Leocádio: Em muitos casos, sim. A tecnologia está a evoluir mais depressa do que os modelos de governação, segurança, responsabilização e adaptação humana. Quando a IA deixa de recomendar e começa a agir, já não basta saber se o modelo funciona; é preciso saber quem autoriza, quem acompanha e quem responde pelo resultado.

D.I.: Há empresas com grandes volumes de dados que continuam a não conseguir retirar valor desses ativos. Em 2026, o maior problema é a tecnologia ou a qualidade, integração e governação dos dados?

Miguel Leocádio: Hoje já existe capacidade para armazenar, processar e explorar dados. O desafio é garantir que esses dados estão preparados para gerar valor. A qualidade, a integração e a governação dos dados deixaram de ser apenas temas técnicos e passaram a ser condições essenciais para escalar IA com segurança.

D.I.: O que distingue as organizações que estão realmente a transformar o negócio com IA daquelas que apenas aprenderam a falar sobre IA?

Miguel Leocádio: A diferença está entre as organizações que se limitam a experimentar tecnologias e aquelas que avançam com um plano de transformação mais profundo dos seus processos, incluindo do seu modelo operativo e de negócio. A tecnologia deixou de ser o fim da transformação e passou a ser um teste à capacidade da própria organização para se transformar.


Quer ler a entrevista na íntegra? Consulte a versão completa publicada pela Digital Inside aqui.

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